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Este Estado é um condomínio privado

11 Jan

Fernando Sobral no Jornal de Negócios :
‘ Este relatório é apenas o corolário da verdadeira estratégia de Passos, Gaspar, FMI e UE para Portugal: acabar com o Estado social e arrasar a classe média através de impostos sem fim. Agora, após este relatório, onde está evidente toda essa estratégia, resta saber como se conciliará isso com a democracia.’

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Fácil de Entender

9 Jan

Pedro Santos Guerreiro no Jornal de Negócios:

‘Queremos discutir a reforma do Estado? Mesmo? A pergunta não é retórica, isto é mesmo connosco – é mesmo consigo. O relatório do FMI ao Governo, que o Negócios hoje revela, é como dúzias de ovos: faça omeletes, frite-os, parta-os no chão, mas interesse-se: o Estado está entre um fazer novo e o desfazer-se velho.

Não é imposição da troika, é opção nossa. A troika está perto de cumprir o seu objectivo principal, o de viabilizar o regresso de Portugal aos mercados, e depois quer sair daqui para fora com a mesma velocidade que nós a queremos fora daqui. As reformas estruturais foram aviadas, mal ou bem, o sistema financeiro manteve-se estável, o défice há-de ter novas flexibilizações, por causa da economia europeia (que dificulta a recuperação económica) e do desemprego (que implica deixar funcionar os estabilizadores automáticos: menos receitas de IRS e mais despesa social). Mas o Estado não mudou. Ainda. Provavelmente, nunca. Mas “nunca” quer dizer impostos. E essa também é uma opção.

É o Governo, não a troika, que detém as opções políticas de mudar a saúde, a educação, as prestações sociais, a segurança interna e a defesa externa. Está tudo na célebre frase de Gaspar: ou queremos pagar este Estado ou ter um mais barato. O Governo prefere um mais barato eliberal. E pediu consultoria a entidades internacionais. A do FMI chegou. De mansinho. Mas com estrondo.

O FMI faz um típico estudo de consultor: faz comparações (com outros países) e sugere melhores práticas. Assim faz quem não sabe inovar: imita quem, sendo parecido, faz melhor. Podemos chamar os técnicos do FMI de “neos” ou de “ultras”, mas se as análises estão correctas, eles também têm nomes para nos chamar. E o mais delicado de todos é este: ineficientes. Porque, em linguagem de economistas, que é a do FMI, produzimos pouco (outputs) para o dinheiro que gastamos (inputs).

A saúde é o sector mais poupado na comparação. É dito que temos médicos a mais (e bem pagos demais) para enfermeiros a menos, mas os resultados são bons. Conforme o Negócios havia revelado no trabalho desenvolvido no final de 2012, também o FMI conclui que em Portugal há muito mais polícias e militares que noutros países -, mas o FMI vai mais longe, denuncia-os como classes de privilégio. Mas é outra a classe que é especialmente chumbada: a dos professores. O FMI arrasa a educação, concluindo que uma reforma moderada implicaria a dispensa de 50 mil professores. Mais: diz que os resultados dos alunos no ensino público são fracos. Custa aceitar estes diagnósticos, até porque nas suas causas estão opções erradas de lideranças passadas, mais do que propriamente dos trabalhadores do Estado. Mas este não é um relatório de culpa, é de eficiência. E o nosso Estado é pouco eficiente. Faz pouco para o que custa. Ou custa muito para o que faz.

O relatório do FMI é politicamente incorrecto. Por isso, será politicamente arrasado. Por exemplo, quando coloca o ónus sobre a Função Pública e recomenda cortes em todas as pensões. Por exemplo, quando diz que os salários mais baixos do Estado também têm de ser cortados: é precisamente nos menos qualificados que os funcionários ganham mais do que no sector privado, não nos mais qualificados. Por isso, aquilo que é socialmente justo (não cortar os salários mais baixos da Função Pública) é economicamente injusto (desincentiva o mérito e a eficiência).

Mudar o Estado tem de ser mais do que desenhar um plano de corte de quatro mil milhões. Esse plano é fácil de desenhar: despede, corta pensões, salários e subsídios, aumenta taxas moderadoras, propinas e serviços públicos. É aliás tão fácil de desenhar como impossível de executar. E isso significa ter um Estado que implica impostos altos – e que continuarão altos mesmo depois da suposta redução da dívida pública.

Difícil é mudar o Estado. A cultura do Estado. A eficiência do Estado. O mérito no Estado. Até porque o Estado está capturado não só por grupos de interesse empresariais, mas também por um grupo que não mudou nada, rigorosamente nada durante a austeridade: os partidos políticos. Antes e depois da troika, os partidos da governação são mesas redondas de distribuição de poder e de dinheiro. E não vão abdicar da inércia que perpetua essa distribuição. É por isso que cortar quatro mil milhões de euros de forma permanente é como querer transportar elefantes em nenúfares. Só com um acordo forte no bloco central tal seria possível. E esse acordo já lá não há.

O relatório do FMI não é para culpar, é para discutir. Pondo sempre a palavra “crescimento” no outro prato da balança e a palavra “impostos” como seu fiel. Portugal não pode morrer entre a ruptura orçamental endémica e a ruptura política e social que o bloqueia. O Estado ou muda ou racha? Não: se muda, racha. Se não muda, rocha. Agora escolha.’

À espera que gostem e concordem

8 Jan

Alexandra Machado no Jornal de Negócios :
Também não consigo perceber porque aceitam estes especialistas fazer propostas e estudos sem receber. Não gosto que o Estado gaste dinheiro com estes trabalhos mas não seria mais transparente ? Estes especialistas não aceitam cargos públicos porque se ganha mal, mas fazem estudos “pro bono”…à espera de quê ? ‘

Mefistófeles e a digressão de Merkel

9 Nov

“A poucos dias da digressão nacional de Angela Merkel, o sempre empolgado presidente do Bundesbank, Jens Weidmann, foi a Frankfurt fazer uma conferência sobre Johann Wolfgang Goethe, o grande autor alemão falecido há 180 anos. O seu tom, ao falar das relações de Goethe com o dinheiro, foi o de sempre: desafiador.

Weidmann centrou-se na segunda parte do “Fausto” delineado por Goethe e especialmente na parte em que Mefistófeles, a voz do Diabo, convence o imperador a imprimir dinheiro para resolver os problemas do momento, iludindo o que criaria no futuro, o horror da inflação.

A ideia de Weidmann não era tanto mostrar que o dinheiro é uma obra do demónio, mas sim demonstrar que muito dinheiro traz festa mas também produz pesadelos no futuro. Todos leram nas palavras de Weidmann uma crítica audível a Mário Draghi, o Mefistófeles do momento, e às suas ideias de comprar obrigações, um trabalho do Diabo como é bom de ver. Nada de novo em Berlim, portanto…

Mas é esta Alemanha, que recupera um Goethe tão em voga no pós-I Guerra Mundial e durante o período inflacionário da República de Weimar, que hoje determina o futuro da Europa. Unida ou desunida, com euro ou sem ele. Os alemães gostam de associar a dívida à culpa e não esquecem que foi nas cidades do Sul (especialmente de Itália) que surgiram as primeiras inovações financeiras no sector bancário. Os alemães são conservadores em relação ao crédito e aplicam Goethe para desenhar a sua imagem dos povos do Sul.

O maior pecado mortal para os alemães (e, claro, para Goethe) não é a cobiça, mas sim a preguiça. Se juntarmos os pecados da preguiça e da dívida veremos melhor como os alemães devotos de Goethe nos olham em Portugal, na Espanha, na Itália e na Grécia. E, quiçá, em França.

É por isso que, mesmo sendo um aluno atento de Merkel, Passos Coelho nunca deixará de ser um homem do Sul. O maior problema que envolve as ideias hegemónicas de Bruxelas em termos de criar o “ser europeu” e de Berlim, de criar um espaço económico segundo os princípios alemães, é que a Europa não é a soma das suas partes.

Como escreveu o grande político português do século XIX, João Andrade Corvo: “A criação de poucos e grandes Estados, a supressão dos pequenos Estados na Europa, seria uma verdadeira calamidade, seria um perigo para a felicidade dos povos”. E é de felicidade que não se ouve falar.

É de penúria, rigidez, austeridade, impostos, pecados. E Portugal deveria, apesar de estar de mão estendida, perceber que a cultura do Sul nunca conseguirá evoluir junto à do Norte da Europa. Quando os franceses deram a bênção à reunificação alemã, discutiu-se o preço. E ele foi amarrar a Alemanha a uma moeda única. Disse-se então que o acordo previa metade do marco para Mitterrand e toda a Alemanha para Kohl.

O “neto de Adenauer” queria uma Alemanha ligada à Europa, para resistir ao canto das sereias do passado. Kohl queria um tecto europeu sobre a Alemanha e não um tecto alemão sobre a Europa. E a desculpa maior era que o euro serviria para os europeus deixarem de lutar uns contra os outros.

Hoje, onde está o projecto europeu da Alemanha? Nas palavras do presidente do Bundesbank ou na firmeza de Merkel? O fosso de produtividade é enorme entre o Norte e o Sul e isso também tem a ver com razões culturais e não apenas com custos do factor trabalho. É impossível o convívio dentro da mesma moeda sem a desvalorização do factor trabalho no Sul. E o que é que isso significa? Pobreza e submissão. Até que ponto o Sul aguentará isso?

Merkel, Gaspar e Passos acreditam que a varinha mágica do corte dos salários curará tudo. Mas os portugueses ganham três ou quatro vezes menos que os alemães e pagam o mesmo preço no supermercado pelos produtos de primeira necessidade. Por isso Mefistófeles será cada vez mais escutado em Portugal.”
Fernando Sobral no Jornal de Negócios

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