Tag Archives: democracia

As conferências do Casino

19 Jun

Ninguém desconhece que se está dando em volta de nós uma transformação política, e todos pressentem que se agita, mais forte que nunca, a questão de saber como deve regenerar-se a organização social.
Sob cada um dos partidos que lutam na Europa, como em cada um dos grupos que constituem a sociedade de hoje, há uma ideia e um interesse, que são a causa e o porquê dos movimentos.
Pareceu que cumpria, enquanto os povos lutam nas revoluções, e antes que nós mesmos tomemos nelas o nosso lugar, estudar serenamente a significação dessas ideias e a legitimidade desses interesses; investigar como a sociedade é, e como ela deve ser; como as nações têm sido, e como as pode fazer hoje a liberdade; e, por serem elas as formadoras do homem, estudar todas as ideias e todas as correntes do século.
Não pode viver e desenvolver-se um povo isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando deve também ser o assunto das nossas constantes meditações.
Abrir uma tribuna aonde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este momento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos;
Ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada; Procurar adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam na Europa;
Agitar na opinião pública as grandes questões da filosofia e da ciência modernas;
Estudar as condições da transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa;
Tal é o fim das conferências democráticas.

Lisboa, 16 de Maio de 1871. – Adolfo Coelho, Antero de Quental, Augusto Soromenho, Augusto Fuschini, Eça de Queiroz, Germano Vieira Meireles, Guilherme de Azevedo, Jaime Batalha Reis, J.P. Oliveira Martins, Manuel de Arriaga, Salomão Sáraga, Teófilo Braga.
Será segunda-feira, 22 do corrente, às 9 horas da noite, a primeira conferência; seguindo-se as outras todas às segundas-feiras, à mesma hora. Entrada 100 réis”.

Este era o texto do Manifesto que apresentava as Conferencias Democráticas do Casino Lisbonense, que comemoram hoje a sua ultima Conferência por terem sido proibidas antes de terminarem.
Na ultima Conferencia, a 5.a sobre “A Questão do Ensino” a Palestra foi proferida por Adolfo Coelho, que traçou um quadro desolador do ensino em Portugal, mesmo o superior, através da História.
A 26 de Junho de 1871, ocorreria a ultima das Conferencias , mas o Governo, por portaria, mandou encerrar a sala do Casino Lisbonense e proibiu as Conferências. Era a Conferência sobre “História Crítica de Jesus” e o orador Salomão Saragga.
Foi há 142 anos mas nada se perdeu no tempo

Portugal procura democracia para relacionamento sério

5 Fev

PAULO-VALERIO-300x168

Paulo Valério nas Beiras :

‘ Nos próximos tempos, seremos chamados a escolher. Nas autárquicas, entre Machado e Barbosa de Melo. No PS, entre Costa e Seguro. Em legislativas, talvez, entre um destes últimos e Passos Coelho. Escolheremos, pois, como sempre, para, no dia seguinte, seja qual for o resultado, voltarmos ao desalento do costume. Há décadas que é assim, primária e imatura, a nossa relação com a democracia.

O eleitor português está para a democracia, como o Zé Zé Camarinha está para as inglesas de Albufeira. Vivemos uma espécie de “Camarinhocracia”. Tudo se resume a meter, o mais depressa possível, o voto dentro da urna. Depois, a insatisfação e ansiedade próprias de quem não tem qualquer capacidade para lidar com um verdadeiro compromisso.

Em geral, quando escolhemos, tendemos a achar que o nosso candidato, consumada a eleição, acorda penteado, sem olheiras e a cheirar a sensodyne. Ou por outra, não queremos saber disso para nada. No fundo, esperamos que não nos incomode durante, pelo menos, uns quatro anos, altura em que talvez nos disponhamos a voltar a introduzir o dito cujo, na urna.

Talvez o Zé Zé Camarinha pudesse ser hoje um pacato chefe de família, com um rancho de miúdos loiros a puxar-lhe as calças, à sombra de uma alfarrobeira. E talvez todos nós pudéssemos hoje conviver melhor com a política, com o país e connosco próprios, se tivéssemos sabido manter com a democracia uma relação adulta, comprometida e, porque não dizê-lo, apaixonada.

Assim, vai-nos calhando quem, na verdade, tem pouco mais do que umas cambalhotas na areia para oferecer.

Ao fim de 38 anos, a adolescência democrática de Portugal ultrapassou todos os limites. É preciso construir uma relação madura com a política, participando, de facto, e resistindo a escolher candidatos em função de instintos básicos. Neste contexto, gosto de acreditar que Portugal é um jovem trintão vivido, mas de bons costumes, ainda a tempo de encontrar uma democracia educada e carinhosa, disponível para relacionamento sério.’

25 de Novembro

26 Nov


“O 25 de Novembro é uma altura nefasta que deve ser motivo de aprendizagem, que nos mostra que sempre que um povo não vive em democracia autêntica, o combate político deixa de ser aquilo que deve ser em democracia, que é um combate político desarmado, em que as opiniões se confrontam, as ideologias se confrontam e tudo se decide em eleições e passa muitas vezes a ser um conflito armado em que irmãos deixam de ser apenas adversários políticos para passarem a ser inimigosRamalho Eanes

Solidário com Mário Paiva

9 Out

Se dúvidas houvesse sobre o estado a que chegaram muitas juventudes partidárias por esse país fora, a reunião da Comissão Politica da Juventude Socialista de Coimbra de ontem à noite revelou a essência do pensamento político que por ali predomina. Para a maioria significativa dos jovens socialistas que participaram naquela reunião esse pensamento orienta-se pela subserviência das opções individuais aos compromissos de interesse.
Quando vivi a realidade das juventudes partidárias sempre vi respeitado o direito ao pensamento político e às opções que cada um tomava perante as escolhas que tinha de fazer. Nunca qualquer posição mereceu represálias que colocassem em causa o normal funcionamento dos órgãos internos, nem o ” vandalismo ” político que se tem assistido na Juventude Socialista de Coimbra.
Estes jovens desconhecem o que significa democracia e não estão preparados para exercer quaisquer funções que lhes exijam o respeito pela diferença de opinião.
Mario Paiva foi eleito Presidente da Juventude Socialista do Distrito de Coimbra em finais de Março passado, sem qualquer oposição. Mereceu dos seus pares a confiança para conduzir os destinos da Juventude Socialista. Coimbra e Mira, as duas maiores concelhias da Juventude Socialista, não tiveram condições de apresentar qualquer alternativa ou reconheceram em Mário Paiva a liderança que o Distrito necessitava.
Uns dias após o Congresso, Mário Paiva assume a título pessoal uma posição de apoio à minha candidatura à Federacao do PS, convicto de que esse era um direito que lhe estava reservado apesar da sua condição de lider da Juventude Socialista. Direito alias, que cada um dos restantes militantes também exerceu para apoiar outra candidatura ou até a mesma.
Mario Paiva fez a sua opção pessoal. Pois, as concelhias de Coimbra e Mira da Juventude Socialista não aceitaram que o Lider da JS apoiasse uma candidatura que tinha dado o maior apoio às iniciativas da Juventude Socialista e proporcionado à Juventude Socialista a melhor posição de sempre na lista de deputados. E retaliaram, recusando- se a eleger o secretariado da Federação da Juventude Socialista , usando a mesma estratégia que tinha sido usada por alguns militantes do partido, sintonizados com os jovens opositores a Mario Paiva, para evitar que um Presidente da Federação elegesse durante 6 meses o seu secretariado.
Só há uma palavra para qualificar esse comportamento e o que ocorreu ontem : uma vergonha!
Mario Paiva apesar de sozinho revelou um caracter que muitos dos seus opositores alguma vez entenderão , por muitas tertúlias e apelos a memória de republicanos o façam : a de que vale mais estar só mas bem com as suas convicções e com os valores republicanos que defende do que estar acompanhado mas manietado nas suas convicções, prisioneiros de um pensamento único.
Que pobreza…

Citação

Enquanto a Europa não se entende

26 Set

“A adesão à CEE por parte da Grécia (1981) e de Portugal e Espanha (1986) foi essencial para que a transição para a democracia nestes países evoluisse, de forma estável e de braços dados com o crescimento económico, para um período de consolidação e maturação do sistema democrático. Democracia, prosperidade e Europa são, na memória da maioria dos cidadãos da Europa do Sul, os vértices de um mesmo triângulo.

Hoje, estamos perigosamente a percorrer o caminho inverso. A receita punitiva do programas de ajustamento está a destruir a economia grega – algum país, algum povo consegue aguentar a queda do PIB de 25% em 5 anos sem invadir as ruas? nenhum político alemão ou de qualquer outra nacionalidade faz a mais pequena ideia do que está a dizer quando afirma que é preciso fazer “sacrifícios”, ou de que não há a austeridade sem “sofrimento”; nenhum teria a coragem para impor metade dos sacrificios concentrados em 2 ou 3 anos sobre a sua própria população -, e deixará semelhante rasto da destruição na economia portuguesa e espanhola, destinadas a definhar abraçadas nos próximos anos. A dias ou semanas de um “resgate” como o grego ou o português, a Espanha – o tal país que, segundo o PSD, tinha feito tudo bem há um par de anos (corte de salários na função pública, liberalização dos despedimentos, aumento da idade da reforma, proibição do défice estrutural na Constituição, etc.) e, dessa forma, escapado a um resgate, lembram-se? percebem hoje o ridículo? – ainda não engoliu o comprimido por inteiro e já vive literalmente ameaçada pela desagregação, enquanto as ruas de Madrid já estão a ferro-e-fogo e Rajoy ainda nem chegou à fase do PEC IV – quanto mais ao que se seguirá. Entretanto, preparam-se para o desemprego espanhol chegar aos 30%. Será uma experiência económica e social memorável.(…)” para ler na integra no Jugular

Estivemos lá

15 Set

Praça da República, 15 de Setembro de 2012 ( Fátima Cardoso Mendes)

Praça da República, 15 de Setembro de 2012 ( António Pinto )

Praça da República, 15 de Setembro de 2012 ( Teresa Alegre)

Praça da República, 15 de Setembro de 2012 ( Américo Batista, Susana Pereira, Carlos Cruz e Isabel Gonçalves)

Praça da República, 15 de Setembro de 2012

Manifestação de 15 de setembro de 2012 – Av Sá da Bandeira

Manifestação de 15 de Setembro de 2012 – Praça 8 de Maio, Coimbra

Manifestação de 15 de Setembro de 2012 – Visconde da Luz

Estivemos lá. Estivemos porque acreditamos que só demonstrando a força do descontentamento se pode mudar o rumo da insensibilidade social e da injustiça fiscal. Empresários e trabalhadores, estudantes e desempregados, jovens e reformados, todos em unissono disseram que este não é o caminho. Uma unidade que não foi só de esquerda, foi de todos os que dizem basta.
Não sei se foram 20 mil, mas foram muitos milhares;
Não sei se foi a maior manifestação desde 1974 mas sei que me senti de novo nesse tempo;
Estive lá… orgulhoso da capacidade de um povo sereno, mas determinado;
De um povo que revela sentido patriótico, mas não é parvo.
Afinal, já vivemos em democracia há 38 anos e não perdemos o jeito…