Na despedida de Bento XVI

1 Mar

Eduardo Febbro no [Carta Maior] :
‘Roma – Há um momento na vida de um ser humano em que tudo o que ele tem que fazer é a última vez de algo. Desde o papa Bento XVI anunciou, dia 11 de fevereiro, que renunciaria a seu pontificado, tudo o que ele faz a caminho de voltar a ser Joseph Ratzinger, é o último: o último Ângelus no domingo e, na quarta-feira, a última audiência pública das quartas, a número 348, sob um generoso sol matinal e com uma Praça São Pedro lotada de gente. Essas audiências são realizadas no interior do Vaticano e são de acesso livre, mas nesta quarta havia tantos pedidos que ela foi feita na praça, com toda a pompa com que o Vaticano cerca essas cerimônias. Outra vez estavam eles ali para sustentar a estrutura terrestre com a qual a Igreja Católica maculou seus atos: o apetite pelo poder, a pedofilia, os negócios confusos do Banco do Vaticano, a guerra entre grupos e congregações. Eles são os fieis, cerca de cem mil.

Emocionados, com lágrimas nos olhos ou com olhar beato, seguem crendo com fé nesse Deus tão mal representado por muitos dos cardeais sentados na estrada do Vaticano. Momento estranho, surrealista, embebido de emoção e desencanto. Com uma voz às vezes rasgada e gutural, o papa evocou a dúvida, o poder da fé, sua missão e o cansaço que, disse, o levou a uma renúncia cuja “gravidade” assumia plenamente.

Talvez por ter sido o último encontro, bento XVI pareceu mais humano, mais simples, mais compreensível, mais transparente em sua complexidade. “Nos últimos meses senti que minhas forças tinham diminuído e, com insistência e na oração, pediu a Deus que me iluminasse para que eu tomasse a decisão mais justa, não para o meu bem, mas sim pelo bem da igreja. Dei esse passo com a plena consciência de sua gravidade, e também de sua novidade, mas com uma profunda serenidade”. Muitos séculos o separam do papa Celestino. Eleito papa em julho de 1294, Celestino renunciou ao papado no mesmo mês. Celestino não falava latim, desconhecia o direito canônico e era um péssimo teólogo. Tudo ao contrário de Ratzinger, que é um grande teólogo, fala seis idiomas, conhece outros cinco, toca Mozart ao piano e deixou, apesar das reservas dos anti-vaticanistas, uma obra escrita de considerável interesse.

O homem que se despediu nesta quarta-feira está marcado por uma complexidade mutante: reacionário e, em alguns períodos da história, nem tanto; membro do aparato mais denso da igreja, mas também capaz de provocar a abertura de segredos e atingir a proteção dos intocáveis, expondo os casos de pedofilia, condenando os culpados, depurando as contas sujas da igreja e rompendo o cerco que protegia o fundador dos Legionários de Cristo, o padre mexicano Marcial Maciel, pedófilo, alcoólatra e ladrão. Seu último movimento nesta direção foi a destituição do cardeal primaz da Escócia, Keith O’Brien, envolvido igualmente em abusos sexuais.

Ratzinger é um personagem com muitos rostos e deixa um legado a partir do qual a igreja não poderá mais ser a mesma. Seu pontificado é uma mancha de escândalos. Sua saída de cena é igualmente paradoxal. Os papas não se despedem em vida, como aconteceu na quarta. Ratzinger, sim. Ele falou de seu mandato, desses anos nos quais “houve dias de sol e de brisa suave, mas também dias nos quais as águas estiveram agitadas, o vento soprava contra e Deus parecia estar adormecido”.

Às 8 horas da noite deste 28 de fevereiro, Ratzinger deixará de ser papa e abandonará o Vaticano. Regressará dentro de dois meses para viver no convento de monjas que está dentro da cidade papal. Neste período, será nomeado o próximo sumo pontífice e no Vaticano conviverão dois papas: o demissionário e o novo. “Não abandono a cruz, sigo ao lado do senhor crucificado, mas de uma nova maneira”, disse Razinger. Os vaticanistas acreditam que ele não vai embora de verdade, que exercerá sua influência para seguir depurando as águas de uma igreja que só vive pela pureza de seus fieis que ainda acreditam na sagrada providência, enquanto a igreja dos homens afunda nas vilanias terrestres.’

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