Coimbra tem mais encanto

15 Fev

Eduardo Cabrita no Correio da Manhã :
‘Coimbra no seu mistério, encanto, sedução e decadência está ligada a muitas das marcas que definem a portugalidade.
Encerra nos mistérios de Santa Clara as nossas raízes historicamente submersas pela impotência perante a natureza e pelo desmazelo dos homens. Tem o fatalismo da radical desdita dos amores proibidos de Pedro e Inês. Foi durante séculos a maior Universidade portuguesa, hesitando hoje entre a aposta nos nichos de excelência e a sobranceria provinciana das glórias caducas. Tem a nostalgia antecipada da revolução alcoólica e a magia das serenatas. Formou as maiores vozes da resistência, de Alegre a Adriano e Zeca, mas produziu o ditador português suave que ameaçava o povo com voz de falsete.
Coimbra é uma terra em que os “doutores” da Praça da República não colam com os futricas da margem do Mondego. É uma cidade mal-amada por quase todos sonhada e que sofre de negro com o segundo clube do coração da maior parte dos portugueses. A vida cultural é estranhamente pobre, mas tem mais e melhores médicos do que qualquer ‘Anatomia de Grey’, um espantoso Centro de Artes Visuais e algumas das mais criativas empresas do mundo, como a CH Consulting ou a Critical Software. Tem a grandeza das lutas académicas e a mediocridade tacanha de um Portugal dos Pequeninos.
Este texto tem a melancolia da vida que não tive porque nunca estudei ou vivi em Coimbra, mas admiro os pactos de sangue para a vida celebrados pelos que por lá passaram.
Costa e Seguro não se cruzaram por lá, mas fumaram aí com o rebatizado ‘Documento de Coimbra’ o cachimbo da paz. A prosa é de uma meridiana análise estratégica voltada para uma leitura arguta da crise e uma busca de alternativa que dê voz ao País desesperado que não se sente representado na forma de fazer oposição. Olhar para fora permitiu fechar os olhos para dentro e ignorar a tragédia de Matosinhos e de como importa debater o oceano que separa primárias de diretas.
Não estive em Coimbra, mas respeito a graça da fé e sei que um cachimbo pode dar um prazer tão duradouro quanto a difícil arte de manter acesa a chama do consenso. “Vi minha pátria parada, à beira de um rio triste”… mas Coimbra tem mais encanto.’

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