Mefistófeles e a digressão de Merkel

9 Nov

“A poucos dias da digressão nacional de Angela Merkel, o sempre empolgado presidente do Bundesbank, Jens Weidmann, foi a Frankfurt fazer uma conferência sobre Johann Wolfgang Goethe, o grande autor alemão falecido há 180 anos. O seu tom, ao falar das relações de Goethe com o dinheiro, foi o de sempre: desafiador.

Weidmann centrou-se na segunda parte do “Fausto” delineado por Goethe e especialmente na parte em que Mefistófeles, a voz do Diabo, convence o imperador a imprimir dinheiro para resolver os problemas do momento, iludindo o que criaria no futuro, o horror da inflação.

A ideia de Weidmann não era tanto mostrar que o dinheiro é uma obra do demónio, mas sim demonstrar que muito dinheiro traz festa mas também produz pesadelos no futuro. Todos leram nas palavras de Weidmann uma crítica audível a Mário Draghi, o Mefistófeles do momento, e às suas ideias de comprar obrigações, um trabalho do Diabo como é bom de ver. Nada de novo em Berlim, portanto…

Mas é esta Alemanha, que recupera um Goethe tão em voga no pós-I Guerra Mundial e durante o período inflacionário da República de Weimar, que hoje determina o futuro da Europa. Unida ou desunida, com euro ou sem ele. Os alemães gostam de associar a dívida à culpa e não esquecem que foi nas cidades do Sul (especialmente de Itália) que surgiram as primeiras inovações financeiras no sector bancário. Os alemães são conservadores em relação ao crédito e aplicam Goethe para desenhar a sua imagem dos povos do Sul.

O maior pecado mortal para os alemães (e, claro, para Goethe) não é a cobiça, mas sim a preguiça. Se juntarmos os pecados da preguiça e da dívida veremos melhor como os alemães devotos de Goethe nos olham em Portugal, na Espanha, na Itália e na Grécia. E, quiçá, em França.

É por isso que, mesmo sendo um aluno atento de Merkel, Passos Coelho nunca deixará de ser um homem do Sul. O maior problema que envolve as ideias hegemónicas de Bruxelas em termos de criar o “ser europeu” e de Berlim, de criar um espaço económico segundo os princípios alemães, é que a Europa não é a soma das suas partes.

Como escreveu o grande político português do século XIX, João Andrade Corvo: “A criação de poucos e grandes Estados, a supressão dos pequenos Estados na Europa, seria uma verdadeira calamidade, seria um perigo para a felicidade dos povos”. E é de felicidade que não se ouve falar.

É de penúria, rigidez, austeridade, impostos, pecados. E Portugal deveria, apesar de estar de mão estendida, perceber que a cultura do Sul nunca conseguirá evoluir junto à do Norte da Europa. Quando os franceses deram a bênção à reunificação alemã, discutiu-se o preço. E ele foi amarrar a Alemanha a uma moeda única. Disse-se então que o acordo previa metade do marco para Mitterrand e toda a Alemanha para Kohl.

O “neto de Adenauer” queria uma Alemanha ligada à Europa, para resistir ao canto das sereias do passado. Kohl queria um tecto europeu sobre a Alemanha e não um tecto alemão sobre a Europa. E a desculpa maior era que o euro serviria para os europeus deixarem de lutar uns contra os outros.

Hoje, onde está o projecto europeu da Alemanha? Nas palavras do presidente do Bundesbank ou na firmeza de Merkel? O fosso de produtividade é enorme entre o Norte e o Sul e isso também tem a ver com razões culturais e não apenas com custos do factor trabalho. É impossível o convívio dentro da mesma moeda sem a desvalorização do factor trabalho no Sul. E o que é que isso significa? Pobreza e submissão. Até que ponto o Sul aguentará isso?

Merkel, Gaspar e Passos acreditam que a varinha mágica do corte dos salários curará tudo. Mas os portugueses ganham três ou quatro vezes menos que os alemães e pagam o mesmo preço no supermercado pelos produtos de primeira necessidade. Por isso Mefistófeles será cada vez mais escutado em Portugal.”
Fernando Sobral no Jornal de Negócios

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