Durante o tempo que demora a viagem que me leva regularmente até Lisboa e me devolve a Coimbra, aproveito a oportunidade para actualizar as minhas leituras da imprensa diária e artigos ou estudos desenvolvidos em diversas áreas que coloco em arquivo quando o tempo me falta.
Uma dessas leituras que mereceu a melhor da minha atenção, e que resolvi partilhar com os leitores desta revista, foi um artigo publicado numa revista brasileira, a Revista Espaço Académico, por Raymundo Lima, psicanalista e professor da Universidade do Estado de Maringá no Brasil .
Com o título ” O poder muda as pessoas” , Raymundo inicia o seu texto com uma citação de R. Kurtz, ” o poder torna as pessoas estúpidas e muito poder, torna-as estupidíssimas” que nos desperta a curiosidade e nos prende à sua dissertação sobre o poder, particularmente pela actualidade dos tempos que correm.
Segundo o trabalho que nos dá a conhecer, Raymundo tenta explicar como o poder muda as personalidades, quer na forma como cada um o exerce, quer como alguns se transformam, quer ainda como os subordinados se relacionam com o poder.
Nalguns casos, associa o poder a casos de patologia clínica, chegando ao ponto de afirmar que o poder faz fronteira com a loucura, como aconteceu com Napoleão ou o Rei Luis XV. Há, segundo ele, um narcisismo, uma auto-admiração em muitos que se recusam em aceitar o que vem dos outros, daí a conclusão tirada por R.Kurz e que acima menciono.
No texto, refere Raymundo de Lima que “o sociólogo M. Tragtenberg certa vez observou como muitos intelectuais discursam uma preocupação pelo “social”, mas estão mesmo preocupados com a sua “razão do poder”. Há uma espécie de “gozo louco” pelo poder, que faz subir a cabeça dos que estão jogando para ganhá-lo um dia.”
Mas segundo o que ele defende “ as pequenas autoridades” que se posicionam nas estruturas inferiores, “…costumam ter atitudes mais protofascistas que as grandes. São mais propensas a “vender sua alma ao diabo” que as grandes para estar no poder”.
Pensei no exagero de algumas observações e conclusões, mas reflectia nelas para enquadrar a recente polémica com o prefácio do livro “Roteiros VI” de Cavaco Silva quando, entretanto, participei numa reunião no passado fim-de-semana. E aí conclui que tinha de voltar a ler e até divulgar o trabalho de Raymundo de Lima. É que há leituras que só as entendemos depois de vivermos as situações!
na Revista C




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