AMIGOS DE HOJE

11 Mar

Há alguns meses atrás assisti a uma intervenção emocionada do meu amigo Manuel da Costa, esse homem do rugby que foi governador civil de Évora e deputado constituinte, revoltando-se perante a incapacidade de mobilização dos portugueses na defesa de uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais solidária.
Percebi o desencanto dele quando exemplificou essa inaptidão com a impossibilidade de se criarem relações de confiança até entre vizinhos do mesmo prédio. Sim, esses que habitam o mesmo espaço e quantas vezes nem se conhecem; esses que partilham as mesmas preocupações e quantas vezes nem conseguem dialogar para encontrar as soluções; esses que circulam nos mesmos corredores e nem se cumprimentam. Esses que entregaram a gestão dos problemas comuns a empresas de condomínio.
Resisti a concordar com ele, mas não escondo a preocupação com a (des)construção de uma sociedade em que as pessoas já não compartilham propósitos, gostos e preocupações, nem interagem entre si como uma comunidade. Uma sociedade que substituiu o colectivo pelo individual, a fraternidade soçobrou perante o egoísmo e a solidariedade apenas serve de invólucro a recônditas ambições.
Na verdade, são cada vez menos os amigos verdadeiros. Os amigos que estão presentes nas horas difíceis, que nada perguntam apenas respondem quando são chamados. Escasseiam esses, mas multiplicam-se os que só aparentam sê-lo. Os que desconhecem a dimensão do conceito, os que nunca entenderão que uma amigo é “uma única alma habitando dois corpos”, como bem disse Aristóteles. Infelizmente esses são os amigos da onça ou os amigos de Peniche.
Os amigos da onça são aqueles que permanentemente nos levantam problemas. Não estão preocupados com a solução. Apenas lhes interessa em cada momento criar obstáculos para poderem tranquilamente confirmar a incapacidade deles serem resolvidos.
E temos ainda os amigos de Peniche, aqueles que se nos apresentam sempre com uma enorme disponibilidade para colaborar mas que têm no seu próprio beneficio o verdadeiro propósito, não evitando, se necessário, o prejuízo de quem neles confia.
Mas, recordando a angústia do Manel, quem assiste ao que se passa num condomínio de referência como o de S. Bento, percebe a quantidade de amigos da onça e de Peniche que o País ali tem. Não nos espanta, por isso, a dificuldade em encontrar soluções consensuais para os problemas que a nação enfrenta, esperando até alguns a chegada de um administrador externo para cuidar do que eles não conseguem tratar .
Por isso meu caro Manuel da Costa, não nos devemos espantar que não existam fraternas relações de vizinhança mas desconhecidos administradores de condomínio.

Publicado na Revista C

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