“Nós, simplesmente, como gente adulta e madura, vamos cumprir o que lá está, custe o que custar. E custa, custa muito, não haja dúvida quanto a isso, mas vamos cumprir”, afirmava há dias Passos Coelho referindo se ao memorando e aos sacrifícios que se está a exigir aos portugueses.
Ficamos assim a saber que a gente adulta e madura deve cumprir. E deve cumprir, na opinião do Primeiro Ministro, se isso custar muito. E que, segundo Passos Coelho, esse custar deve recair sobre um povo que, segundo ele, vive acima das suas possibilidades. «Pobres já nós estamos. Há é pessoas que ainda não se deram conta disso e continuam a viver como se não fossem pobres» sentenciava o líder do PSD na sua cadeira de S. Bento. Nós, que no caso queria dizer eles, o povo. Sim, o Povo esse coletivo que não percebe o que ele já tinha percebido. Ele, o Passos claro!
Ficamos então a saber que o primeiro ministro além de adulto, maduro e cumpridor, também é economista e afinal vive deprimido. Deprimido e angustiado com um povo, que continua a não ter noção da realidade que os atinge.
Mas o que considero realmente estranho é a sua imensa determinação em cumprir o que lhe é imposto em contraponto com a ausência dela quando os compromissos são por si definidos.
Mas o que Passos Coelho deveria saber é que há um País à espera de uma liderança. Que há um povo à espera que lhe digam que é possível sair da crise, que há um caminho.
Os portugueses vivem com a sensação de que cada vez que o seu primeiro ministro vai falar com os seus pares europeus lhes fala dos cortes, dos sacrifícios e de como tudo tem feito para mostrar aos seus concidadãos que não há nenhum país que cresça com excesso de dívida ou ,como já o afirmou publicamente, que o nosso crescimento foi à custa da poupança do exterior, ou seja dos outros povos.
Vivemos com a sensação de que Passos Coelho sente que o seu brilhantismo externo depende da forma como castiga o seu próprio povo. E não será esse o caminho certo.
Como não é certo o caminho de se pensar que o povo está disponível para aguentar todos os sacrifícios porque assim se afirma como um ente colectivo responsável. Os portugueses são um povo disponível para lutar e para fazer sacrifícios mas têm de os entender como válidos. Não por qualquer vocação masoquista ou de subserviência ao capital estrangeiro.
Querer fazer a reforma dos tribunais, das autarquias, da saúde, da educação, das finanças mas sempre a exigir do mais fraco e nunca a reclamar do mais forte é não entender que a corda está esticada ao limite. Que nenhum sacrifício será mais suportado sem que isso coloque em grave risco a paz social.
Pode o governo querer acabar com muito dos que os portugueses têm, e que o conseguiram à custa da sua afirmação como um povo capaz, mas há uma realidade que Passos Coelho deve assimilar, a de que nunca ganhará o país contra o seu povo.
publicado na Revista C




