
O pedido de audiência de Passos Coelho ao Presidente da República, agendada para esta quinta-feira, não terá ocorrido, por certo, no momento mais adequado para Cavaco Silva, o qual desejaria, nesta altura, manter-se afastado das movimentações (e convulsões) partidárias.
Na verdade, depois de um discurso de tomada de posse que só mereceu o aplauso das bancadas do PSD e do CDS, partidos que estiveram na base de apoio da sua recandidatura, Cavaco Silva desejaria afastar-se desse posicionamento fracturante e apresentar-se aos portugueses numa posição de absoluta independência perante as posições que os diversos partidos venham a assumir na próxima semana, e particularmente os partidos à direita do espectro partidário.
Mas não foi esse o entendimento de Passos Coelho. Na minha opinião,o líder do PSD temendo que o Presidente da República não valide a sua pretensão de chamar os portugueses às urnas e confrontado com a pressão dos seus companheiros de partido, terá pedido essa audiência para condicionar a posição futura de Cavaco Silva.
Senão vejamos:
Se perante a recusa do partido de Passos Coelho em aprovar o PEC IV e a óbvia crise política que se seguirá -acreditando que os restantes partidos também não o viabilizarão – , o Presidente da República não convocar eleições, o líder do PSD deslocará a critica e a pressão dos seus companheiros de partido para Belém, fazendo dessa forma o seu seguro de liderança.
O mesmo ocorrerá se o PSD vier a viabilizar, com ou sem alterações, o PEC que será discutido na Assembleia da República durante a próxima semana. A ideia que deixará passar para os militantes do seu partido é de que terá sido Cavaco Silva o responsável por tal alteração.
Mas se pelo contrário, Cavaco Silva o secundar na irresponsabilidade de submeter o País a eleições antecipadas ficará prisioneiro da ideia de que Passos Coelho terá ido a Belém cobrar o apoio à sua reeleição como Presidente da República. Na verdade, perante as declarações conhecidas de diversos responsáveis da Comissão Europeia sobre o recente Plano de Estabilidade e Crescimento apresentado pelo Primeiro-Ministro português e o apelo feito por Cavaco Silva à redução da despesa do Estado por forma a ser possível cumprir os compromissos de Portugal perante as instâncias europeias, mal se perceberia uma decisão em sentido contrário sem a enquadrar no acerto de contas das eleições presidenciais.
Por certo, também o Governador do Banco de Portugal não deixará de concordar com a posição dos seus homólogos europeus sobre a importância da aprovação no Parlamento do PEC IV. Como não deixará de considerar de extrema gravidade para o país o surgimento de uma crise política, razão pela qual será importante ouvir a sua opinião.
No caso de optar por eleições antecipadas, Cavaco Silva seria co-responsável pelas consequências brutais que poderiam advir dessa crise política para os portugueses , assumindo-se como parte do problema e não da solução.
Por isso tudo, entendo que Passos Coelho criou um problema a Cavaco Silva com o seu pedido de audiência, atitude que me parece não ser totalmente descontextualizada dos comentários que alguns militantes dados como próximos do Presidente da República tem vindo a proferir sobre a sua liderança.
Aguardemos pelos desenvolvimentos dos próximos dias para perceber se Cavaco Silva se conseguiu libertar do espartilho em que Passos Coelho o colocou, assumindo o seu lugar de Presidente de todos os portugueses e de referencial da estabilidade política, apelando ao sentido de responsabilidade do líder do seu ex partido.